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Qua, 14 de Dezembro de 2011 13:18
angustia

Enfrentando a Angústia

"Ó Deus da minha justiça, responde-me quando clamo! Alivia minha angústia; tem misericórdia de mim e ouve minha oração. Ó mortais, até quando convertereis minha glória em vexame? Até quando amareis o que é fútil e buscareis a mentira? Sabei que o Senhor distingue para si o piedoso; o Senhor me ouve quando clamo a ele. Na vossa ira, não pequeis; consultai o coração no travesseiro e aquietai-vos.

 Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no Senhor. Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? Senhor, faz resplandecer sobre nós a luz do teu rosto. Encheste meu coração de mais alegria do que sentem os que têm cereal e vinho à vontade. Em paz me deito e durmo, porque só tu, Senhor, fazes com que eu viva em segurança" (Salmo 4).

 

Introdução:

         Ai, que angustia! O que é isso? Algumas respostas do senso comum: "é um beco sem saída dentro do peito", "é uma incerteza sobre as consequências das decisões que tomei". 

De acordo com o Dicionário Enciclopédico (org. por Sérgio Biagi Gregório), angústia vem do latim e significa: estreiteza, espaço reduzido; carência, falta; sentimento que paralisa a vida psíquica racional e consciente, diferente do temor e do medo a algo real e concreto, procedente de uma sensação difusa de insegurança.

         Em psicanálise distinguem-se duas formas de angústia: a angústia face a um perigo real (angústia real) e a angústia perante uma pulsão interna vivida como ameaçadora (angústia pulsional).

         A angústia é uma forte sensação psicológica, caracterizada por "abafamento", insegurança, falta de humor, ressentimento e dor.

         O existencialismo fala sobre angústia de uma forma interessante. Utilizando-se como base o grande autor Soren Kierkegaard, diz que a angústia vem da liberdade que o ser humano tem de fazer suas escolhas e isso não acontece sem sofrimento.

A Filósofa Rita Josélia da Capela Pinheiro, em seu texto sobre o "Homem, a Angústia e sua Existência", diz que a angústia é uma experiência extremamente intensa com uma nota emocional absolutamente peculiar. Nela misturam-se admiração, espanto, terror, exaltação, náusea e sublimidade. O objetivo da experiência da angústia é que diverge:

  • a) Realidade da existência = angústia de ser = angústia do nada;
  • b) Particularidade ou individualidade humana = angústia do aqui e agora;
  • c) Liberdade humana = angústia da liberdade.

Em síntese, para Rita Pinheiro, angústia é desespero. E o homem só sai do desespero quando orientando-se para si próprio, querendo ser ele próprio, o eu mergulha, através de sua própria transparência, até o poder que o criou. Ela conclui dizendo que Deus não pode estar numa realidade transcendente, mas em mim. Somos mais íntimos de Deus do que de nós mesmos.

 

Explicação:

         No Salmo 4 encontramos o autor pedindo justiça a Deus, cobrando uma resposta para o seu sofrimento, clamando: "Alivia minha angústia; tem misericórdia de mim e ouve minha oração" (verso 1b).   

         O salmo é uma oração de confiança, de um homem que lamenta a injustiça sofrida.

 

Tema:"Enfrentando a Angústia"

 

1. Da estreiteza ao espaçamento

         O termo angústia no hebraico é ang = estreito. Assim, o salmista sente apertos e estreitezas, sofre estresse, angustia-se. Ele tem consciência estreita, mas também tem consciência larga, mentalidade ampla, coração dilatado, vivendo no contexto simplesmente humano.

         A questão do espaço é importante, pois o salmista vive em seu tempo e sabe que o tempo passa o espaço alarga-se a fila anda. Ele invoca o Senhor e diz que Deus o ouve (3b). Ele sai da angústia, estreiteza e vai para o espaçamento. Observe que nos versos de 1 a 4 ele vai falando dos mortais, daqueles que buscam o que é fútil e sabe que Deus distingue o fútil do justo. Ele afirma que na ira não há pecado, por isso vai de um pólo ao outro.

          No momento que vivemos a angústia a impressão que temos é que não vamos suportar, pois o peito aperta, parece até que estão esmagando os ossos. Alguns, vivendo a dor no peito, vão ao médico, tiram um RX e constatam que não há nada de errado com seu tórax.

         Viver a angústia é sofrer e sofrer é duro, mas faz parte da vida. Lembro-me de um autor que li chamado Viktor Frankl, em seu livro "Em Busca de Sentido". Ele, judeu, psiquiatra, sobrevivente do campo de concentração, com experiências das mais duras. Passou fome, dor, tristeza e muita angústia. Mas, encontrou em todo o seu sofrimento a vontade de viver e é o fundador da logoterapia ou terapia do sentido. Ele encontrou sentido em toda sua angústia e dor. Tem um trecho do seu livro que ele conta uma experiência interessante, dizendo assim: "havia muito sofrimento esperando ser resgatado por nós. Por isso era também necessário olhar de frente a situação, a avalanche de sofrimento, apesar do perigo de alguém amolecer e, quem sabe, em segredo deixar as lágrimas correr livremente. Não precisaria envergonhar-se dessas lágrimas. Eram o penhor de ele ter a maior das coragens - a coragem de sofrer... certa vez, perguntei a um companheiro como fizera desaparecer seus edemas de fome, ao que ele confessou: Curei-os chorando".

         Lembro-me do nosso Senhor Jesus Cristo, o maior de todos os exemplos, que em grande angústia, antes de tomar a cruz, ora a Deus e chora lágrimas de sangue (Lucas 22.39-46). Ele coloca sua angústia em Deus e busca a largueza (espaçamento) para o enfrentamento.

         Deus nos dá largueza livrando-nos por Cristo da constrição da lei, alargando o sentido da Escritura, alargando por dentro a nossa capacidade. Deus é o nosso espaço, no qual nos movemos e existimos.

         Para enfrentar a angústia saímos da estreiteza para o alargamento, mas também...

 

2. Da tristeza a alegria

         O momento vivido pelo salmista é de extrema tristeza, pois lamenta a injustiça sofrida. Ele foi caluniado e humilhado pelos poderosos. Os autores Schokel e Carniti, comentando o salmo 4, falam que o homem do salmo é pobre e de baixa condição, acusado por gente influente. Essas acusações trazem tristeza. Sua situação é de choro.

           No tocante à análise do problema da angústia, Arthur Schopenhauer nos apresenta em sua filosofia uma visão extremamente pessimista da vida: para ele, viver é necessariamente sofrer. Por mais que se tente conferir algum sentido à vida, na verdade, ela não possui sentido ou finalidade alguma. A própria vontade é um mal. Nós queremos vencer, desejamos vencer. Mas a vontade gera a angústia e a dor e, os mais tenros momentos de prazer, por mais profícuos que possam vir a ser, são apenas intervalos frente à infelicidade. No entanto, Schopenhauer com sua visão pessimista vive tristeza e fala de pouca felicidade.

         Observe que o salmista vive a tristeza, mas não fica nela. Ele não é um pessimista e sim um esperançoso, sua oração é de confiança. Ele fala de uma alegria interior, que é dom direto de Deus, que supera a própria alegria da colheita "encheste meu coração de mais alegria do que sentem os que têm cereal e vinho à vontade" (v.7). A alegria do salmista é, ao invés, paradoxal, porque Deus a infundiu no meio do aperto. Somente Deus pode consolar na tribulação com uma alegria que é testemunho do espírito.

         O apóstolo Paulo relata que transborda de alegria na tribulação, ou seja, na sua tristeza e ele pode viver: "A minha confiança em vós é grande, e orgulho-me muito de vós. Estou cheio de ânimo, transbordo de alegria em todas as nossas tribulações" (2 Coríntios 7.4). A alegria é fruto do espírito (Gálatas 5.22) e não uma condição puramente situacional.

         Para enfrentar a angústia saímos da tristeza para a alegria, mas também...

 

3. Da agitação ao repouso

         O salmista, diante de sua situação estava agitado. O final é a confiança, o repouso depois do tremor. A noite, o silêncio, parecem favorecer a reflexão. Ele reflete sobre o dia e o acontecido, mas não fica agitado, muito pelo contrário, sossega. O perigo que corria era ao retirar-se a luz, anoitecesse dentre dele. Pelo visto isso não acontece, pois vindo à noite, ele pode dormir em segurança: "Em paz me deito e durmo, porque só tu, Senhor, fazes com que eu viva em segurança" (v.8). Quem sentiu a largueza no aperto, pode testemunhar a presença noturna de Deus.

         Schokel e Carniti, no comentário ao salmo 4, dizem que "deitar-se e adormecer são para o orante uma realidade. Não como os que iam para a cama tremendo, buscando serenar-se numa reflexão compungida. Para eles, deitar-se não era dormir, mas revolver-se o fracasso, arrepender-se do pecado, preparar-se para a ação litúrgica. O orante não deverá passar por essas etapas, mas faz coincidir o deitar-se e o adormecer".

         Talvez você viva a agitação da vida e de suas dificuldades. Talvez você vai pra cama e não consegue dormir, virando de um lado para o outro. Fica na cama, refletindo sobre o acontecido e não consegue tirar do seu pensamento. Isso gera angústia e inquietação. Você levanta da cama, vai para sala, vai para a cozinha, assalta a geladeira, come, bebe, vê televisão. Depois de algum tempo, escova os dentes e vai para cama novamente. Talvez essa cena se repita algumas vezes em sua vida.

         A experiência do salmista traz conforto para nossa vida. Ele é exemplo de confiança em Deus. Sabe que em Deus está seguro e pode dormir em paz. Você precisa de segurança? Precisa deitar e dormir em paz? Coloque sua vida em Jesus Cristo, pois só ele concede o alívio para a alma e o descanso para a vida. Jesus é a nossa segurança eterna e garante o descanso.

 

Conclusão:

         Ai, que angustia! Ai, que alívio! Saber de toda a vivência do salmista e ver o caminho que ele encontrou para enfrentar a angústia é confortador. A experiência do salmista foi de aprendizado e crescimento. Ele cresceu com a angústia. Ele não fez como disse o Renato Russo certa vez: "já estou cheio de me sentir vazio". O salmista não ficou vazio, não ficou na estreiteza, no aperto, na agitação e insônia. Muito pelo contrário, ele foi um esperançoso, saiu de um lado e foi para o outro. Saiu da estreiteza para a largueza, da tristeza para a alegria, da agitação para o repouso.

         Convido você para fazer o mesmo que o salmista e colocar toda sua esperança em Deus. Faça uma oração de confiança e peça para Jesus orientar seu caminho, conceder serenidade, abençoá-lo nas tribulações e esperar, pois só Ele nos faz repousar seguros.  

Que Deus o(a) abençoe.

                                  Pr. Hélio Gomes Paulo, pastor da Igreja Presbiteriana Maracanã.

 

 

        

 

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